Fragmentos, fragmentos…

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois deve ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

(Primeiros parágrafos do Livro do Desassossego). 

Livro novo é uma belezura de deus. :)

Sobre grammar nazis

Antis Scriptum: Esse texto tem uma coerência perturbadora, perdoem.

Oi, meu nome é Mariana e já fui grammar nazi. Estou desintoxicando há uns bons dois anos e estou limpa há 2 meses (só por hoje).  Eu resolvi dar meu depoimento, porque eu tenho visto tantos jovens com futuros promissores indo por esse caminho sombrio e sem vida. Sério, tá tomando proporções assustadoras. A minha última recaída foi há umas 9 semanas quando uma amada criatura falou mal do Bolsa Família e terminou com a hashtag #abaixoaipocrisia; aí eu achei que ela merecia. (Minha atitude foi reprovável, eu sei, tsc, tsc.)

Mas desde então, tô limpa.

Porém, essa mesma criatura maravilhosa, há poucos dias, deu uma de professora de português desempregada no facebook. CHO-QUEI. Isso tomou uma intensidade tão grande, que quem é vítima de preconceito linguístico tá por aí reforçando esse mesmo preconceito.

Segue meu depoimento:

Esse meu problema é de família. A minha mãe é daquelas loucas que fica conjugando certo “você” com “lhe”. Todas as cartas, bilhetes que ela me escreveu na vida vinham certeiros na gramática. Virei uma criança chata e presunçosa que corrigia o pai que escrevia “min”. Virei uma daquelas pessoas sem ter o que fazer que refaz planilhas no Excel porque as colunas e linhas não estão simétricas.  Que reescreve texto dos outros quando não gosta da fonte. Dá pra dar mais detalhes da minha personalidade cativante e neurótica, mas acho que isso é o suficiente pra dizer o seguinte: se você se incomoda com erros gramaticais alheios (ou como o guarda-roupa dele não é dividido por cores) o ridículo é você e não o outro. (O que me salva de ser a pessoa mais sarna da história é que eu tenho muita preguiça para ter TOC).

É realmente chato e deprimente ver que o melhor que a gente pode fazer pela nossa autoestima é menosprezar os erros escritos e a fala “errada” do outro; como se isso de alguma forma fosse um legitimador da nossa sapiência.

Falar bem a verdade, hoje em dia acho “min” super charmoso.

Evolução versus Deus

Eu tento, eu realmente tento. Mas daí me aparece esse vídeo fantástico Evolução versus Deus (esse texto é um comentário sobre o vídeo, infelizmente pra entender o texto é relevante assistir). Eu acho inacreditável que em pleno século XXI a gente ainda tenha que explicar conceitos básicos de evolução. Eu tenho essa pequena esperança de que as pessoas tenham algum apreço pelo método científico e não joguem ele no lixo desse jeito. Também espero que jornalistas editem vídeos de maneira a não distorcer o que os entrevistados falam: quase ninguém consegue terminar uma frase ou raciocínio nesse vídeo, esse tipo de “corte” é claramente intencional e pior, corta muita informação importante. Nisso fica uma dica a todos que um dia derem esse tipo de entrevista: façam uma gravação própria por mais caseira que seja.

O vídeo sugere que não existam evidências da evolução. Fósseis, bactérias, DNA, hereditariedade, observação das semelhanças entre espécies, mamilos em machos, úteros em sapos machos, a existência de organismos mais e menos complexos (que claramente formam uma linha evolucionária); nada disso pode ser considerado evidência para eles. Evidência é só se você ver, tocar e experimentar. Evidência é coca-cola. Como historiadora eu não tenho nenhuma evidência dessas de comer que me garanta que a Revolução Francesa existiu. Eu acredito no que os livros dizem, e os escritores acreditam em outros livros e em documentos antigos. Por isso eu chego a conclusão de que a Revolução Francesa não existiu? Não. Porque não bastassem essas “falsas evidências” eu também observo que se a grande maioria dos países ocidentais vivem em repúblicas democráticas, se nós temos conceitos políticos de esquerda e direita, e se nós somos Iluministas (nem todos) a Revolução Francesa deve ter existido. Então pensa um minutinho. Se existem evidências da evolução (as que eu já citei antes) se você pode observar mudanças em espécies em um tempo relativamente curto, se você acredita em DNA,  a evolução deve ser verdadeira. Não é difícil chegar a essa conclusão.

A evolução é observável. Um exemplo claro de evolução artificial (que é a que eu mais domino, mesmo sendo leiga, e que é observável em menor tempo) é a diminuição do tamanho das presas de marfim dos elefantes. Como eles são caçados por conta do marfim, os que tem presas menores tem maiores chances de serem poupados e de procriar. O resultado é que os elefantes das novas gerações nascem com presas menores. O mais apto sobrevive. Isso é hereditariedade, isso é evolução. Isso também pode ser observado em bactérias, em insetos, etc. O processo de evolução natural pode ser observado com mais facilidade em lugares de ecossistema isolado (como as Ilhas Canárias, onde Darwin formulou a teoria). Pelo seu isolamento, as espécies que se desenvolveram lá tem características bastante particulares. Outro ponto importante é que a fisiologia dos animais mostra claramente uma linha evolucionária: o sistema circulatório é menos complexo em peixes, e vai aumentando de complexidade nessa ordem: répteis, aves e mamíferos. Todos os outros sistemas da nossa fisiologia também seguem essa ordem. Isso é uma evidência observável da evolução.

Nem todos nós temos um conhecimento profundo em todas as áreas da ciência. O vídeo tem uma intenção clara de fazer com que os ateus pareçam idiotas, meio burros, arrogantes e que tem fé em algo que não podem provar. Tem PhD entrevistados (cujas falas são sempre cortadas) e graduandos. Estudantes de várias áreas. Esses ficam um pouco aturdidos com as perguntas e não sabem responder, e o entrevistador age como se a discussão portanto estivesse encerrada. Eu não sou médica, não tenho conhecimento médico e se alguém na rua me entrevistar dessa maneira eu vou ficar aturdida da mesma forma. Se alguém quiser me provar que o teorema de Pitágoras é inverdade e fizer isso de um jeito que eu não compreenda, eu vou ficar sem saber o que falar, porque o meu conhecimento dessa área é extremamente limitado. Mas eu acredito no teorema de Pitágoras e acredito nos médicos porque eu conheço o método que produziu esse conhecimento: o método científico, que demanda observação, experimentação, comprovação e tentativas de refutar esse conhecimento. Eu posso não conhecer os detalhes do processo que culminou nesse conhecimento, mas eu conheço o caminho, e conheço a eficácia desse caminho. Eu confio em médicos, matemáticos, físicos, historiadores, psicólogos não porque eu fiz uma pesquisa profunda sobre esses assuntos, mas porque o processo que gerou esses conhecimentos é confiável. O fato de que as pessoas não entendam todo o processo não é um invalidador da teoria, e principalmente não é a mesma coisa que crer numa religião.

Acreditar em uma religião ou na ciência não são a mesma coisa. Pensar assim é um erro básico. Quando eu era pequena meu pai me ensinou: se você pode provar que alguma coisa existe não é fé (meu pai é ateu). Gravem isso: Se você pode provar não é fé; a fé só existe se não existem evidências. A base e o suporte da fé são a própria fé, ela não precisa de evidências. Ciência é o conhecimento produzido através do estudo das evidências. Se você tem um teoria científica e existem evidências irrefutáveis contrárias à sua teoria ela se desmancha. Entendeu a diferença? Fé = Fé x Ciência = Evidências. É por isso que acreditar na ciência não é equivalente a acreditar na fé. Na minha experiência pessoal de vida posso dizer que: quanto mais conhecimento você tem sobre o natural mais você tem que abrir mão da razão pra ter fé. É por isso que nos maiores níveis de escolaridade, existem mais ateus. I’m sorry, but it’s true.

“Você não pode criar uma rosa então o design inteligente é verdadeiro”. Eu não entendo a lógica atrás desse argumento. Alguém? O fato de eu não poder criar uma rosa (eles esquecem que existem vacinas sintéticas, carne sintética e couro sintético, entre outras coisas provavelmente) só prova que eu não tenho acesso à uma tecnologia avançada o suficiente. Não prova nem que o design inteligente existe nem que não. É irrelevante. Dentro desse mesmo “argumento” um estudante diz: “Não se pode criar uma rosa do nada, isso é ciência básica”, o vídeo parece tentar ironizar a fala. Aula de ciências de 6ª série: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Ele tem razão: é ciência básica, quem não entendeu foi o entrevistador.

“Por que o design inteligente não é ensinado nas escolas?”. Por que não é ciência! E o pior de tudo, é que sim, tem muito professor que ensina doutrina religiosa disfarçada de ciência nas escolas sim. O Dawkins, citado completamente sem pudor no vídeo, escreveu o Boing 747 Definitivo, que explica que se é tão improvável que a vida tenha surgido “do nada” (o que não é verdade) é muito mais improvável que um organismo extremamente mais complexo e inteligente (sem contar onipresente, onisciente e onipotente) tenha surgido do nada, ou sempre tenha existido.

Órgãos vestigiais são basicamente, órgãos que perderam sua função à medida em que os organismos evoluem: o apêndice é o mais famoso (se bem que tem quem diga que ele sirva para preservar a flora intestinal em casos de desinteira). Esses órgãos que não tem função no organismo são uma prova da evolução. Em algum momento eles foram funcionais, mas eles não eram mais úteis em determinado ambiente e a evolução foi os atrofiando (o meu marido lindão, não tem os sisos de cima, evolução minha gente!). Homens tem mamilos, úteros em sapos machos, etc.

“Ateus famosos não eram ateus de verdade”. Muito irrelevante citar gente famosa que seja ateu, e boa parte dessas declarações precisam de contexto ou de confirmação. Carl Sagan era agnóstico (ó céus, meu mundo foi por água abaixo): a priori qualquer cientista ateu é agnóstico; já que o agnóstico não aceita nem nega a possibilidade de Deus existir. É uma questão de probabilidades: tem agnósticos que acham mais provável deus existir, tem agnósticos que acham de improbabilidade gigantesca. Se existir uma prova cabal da existência de algum deus (e pode não ser o cristão ai, ai) a sua existência será reconhecida. Sobre esse argumento também seria importante, verificar que nem sempre a palavra deus e ser superior tem a mesma conotação: panteísmo não é incomum entre cientistas e já foi muito mais usual, além é claro da possibilidade de ser também pura figura de linguagem.

Relacionar o ateísmo do Hemingway com o seu suicídio é de puro mal gosto. Descaracteriza uma doença grave que é a depressão e trata o assunto com leviandade.

“Os ateus são desonestos porque não acreditam em absolutos morais”. Você acredita numa religião homofóbica, escravista, machista, assassina, ciumenta e vem falar de moralidade? Gente! Já falei sobre isso aqui: moral e ética são diferentes: um comportamento ético é centrado no bem estar do outro. O estupro é errado não porque a moral é absoluta, mas porque fere o outro. Não é um absoluto moral, é um comportamento ético:

Calma, me explico: a moral é transitória, cultural, inflexível e SEMPRE religiosa. Em geral as pessoas não tem muito claro a diferença entre moralidade e ética: a moralidade muda de sociedade para sociedade e é moldada principalmente pelos princípios religiosos vigentes; já a ética é uma reflexão continua sobre basicamente tudo, levando em consideração os prós e contras e o conhecimento produzido. A moral tem seu foco no individuo, nas suas crenças, nos seus valores. O foco da ética é o outro. É uma mudança gigantesca de perspectiva. Um exemplo claro e atual é a maneira como a sociedade encara a homossexualidade, se o Império Romano não tivesse se tornado cristão a homossexualidade seria encarada com normalidade, porque essa era a prática romana (e grega). O preconceito judeu, através do cristianismo, f* com tudo. É só por isso que você acha estranho, nojento, errado. Isso é moral. Considerar que existem evidências de homossexualidade em todos os animais, e as circunstâncias de sofrimento que o preconceito causa é ética. Deu pra entender a diferença?

 Se Hitler fosse o exemplo moral da nossa sociedade e fosse pró estupro, seria moralmente certo estuprar (e na verdade estupro é uma prática comum em tempos de guerra, e na bíblia também). Eticamente, já é outra história.

That’s all folks!

P.S.: Pra deixar claro o que me irritou nesse vídeo: é um conhecimento superficial para tentar desmoralizar a evolução. Todo mundo tem liberdade de acreditar no que quiser, mas não distorça os fatos, as falas das pessoas, isso é má-fé.

Porque violência doméstica ser gigante entre evangélicos não me surpreende

Cerca de 50% de evangélicas são vítimas de violência doméstica. Essa notícia não me surpreendeu nem um tiquinho de nada. Nem fez cócegas. Não tenho noção donde são esses dados que ela apresenta; pra não falar bobagem fiz uma rápida pesquisa e confirmei que o negócio é bicho feio mesmo.

No começo do vídeo a moça parece querer dizer: “Apesar de serem evangélicos, os homens ainda batem nas mulheres”. Não mocinha, não é apesar. É por causa de!

Já tô até escutando: “RA-DI-CAL!”.

Eu sei que o seu pastor não faz apologia à violência doméstica, e que não defende que homem bata em mulher. O problema é que as pregações evangélicas sobre gênero, relacionamento familiar e sobre como ser uma boa esposa (sim, isso existe!) são de cunho radicalmente machistas. Tipo extremo mesmo. O tipo de machismo que a nossa sociedade (ainda machista) não aceita.

Vou enumerar alguns machismos que me recordo (mas uma leitura distraída da bíblia ou de sermões por aí, vai revelar muito mais).

1º O seu corpo não te pertence, pertence ao seu cônjuge (“A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido; e também da mesma maneira o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher” 1ª Coríntios 7:4). Nada mais possessivo, mais ciumento é possível. Você não pode decidir sobre o seu próprio corpo, sobre o que vestir, não precisa consentir com o ato sexual! E não existe essa reciprocidade que o versículo tenta imprimir: a mulher deve ser submissa ao homem (Efésios 5:22), portanto não existe a possibilidade de uma relação horizontal de poder sobre o corpo do parceiro. Essa relação de domínio e posse é perigosa.

 2º A mulher deve ser submissa ao seu marido (Efésios 5:22). Já vi muita gente querendo justificar esse versículo: “é ser submissa em amor”, “ser submissa a um homem amoroso é fácil” ou o pior “submissão não é inferioridade, ou dominação”, então é o quê? Só se é submisso a alguém que de alguma forma lhe seja superior, a alguém a quem você DEVA obediência. E não importa se é com amor ou sem. Marido não é pai, ele não deve ter poder sobre a esposa, nem nada que se assemelhe.

3º Divórcio é pecado (“Foi dito: ‘Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio’. Mas eu digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério”  Mateus 5:31-32). O divórcio é uma conquista feminina. Quando o divórcio ainda era ilegal e o casamento não dava certo só um dos cônjuges ficava preso à relação: a mulher. Ao homem eram permitidos casos extraconjugais, ao homem era permitido a vida social fora do círculo familiar. Poder sair de um relacionamento que não deu certo foi empoderador para o sexo feminino. E fez muito bem para as relações amorosas: uma relação de poder mais horizontal fez com que a qualidade de vida e felicidade dos casais aumentasse. Achar que o divórcio é errado é tirar esse poder feminino.

4º A sexualidade feminina é entendida como passiva. A mulher não deseja, mas ela provoca. Se o homem sente desejo por alguma moiçola da igreja é culpa dela que não é suficientemente recatada. Existem milhares de códigos de vestuário feminino (de não usar saia curta, decote, muita maquiagem). Se supõe que a mulher tenha controle sobre o seu desejo (ou a falta dele) e o homem não. Ao homem é desculpável o adultério, o desejo, o sexo. À mulher não; à ela não é nem desculpável ser desejada. Como se qualquer um de nós tivesse controle sobre o próprio desejo ou sobre o desejo do outro. Novidade pros evangélicos: desejo é revelia! Não se controla nem o seu, muito menos o dos outros. Aliás tentar suprimir sexualidade é um tiro no pé.

Poxa, numa cultura tão claramente machista não é de estranhar que violência doméstica seja tão comum. Muito mais do que no resto da sociedade.

E se você ainda acha que violência doméstica não tem nada a ver com religião, leia esse texto de um conhecido site evangélico: Mulheres cristãs vítimas de violência doméstica: orar ou denunciar? Esse título não pode ser sério. Alguém consegue imaginar um título semelhante em algum canal de veiculação que não seja religioso? Já imaginou, cê vai lá abrir a página do G1 e dar de cara com isso? No way! Agora vamos às pérolas:

 “No aconselhamento, recebemos mulheres vítimas de violência, que chegam muitas vezes machucadas. Nós apoiamos a denúncia, mas precisamos conversar com o marido. Às vezes, a mulher tem a sua parcela de culpa nos casos de violência, porque provoca o marido. Ela precisa sim denunciar, mas primeiro deve buscar aconselhamento.”. No melhor estilo mulher apanha porque merece: “olha que se seu marido é descontrolado, ciumento, possessivo e violento você tem sua parcela de culpa moça”. Lamentável, sem mais.

“Só há respaldo bíblico para o divórcio em duas situações: infidelidade e abandono. Qualquer outra razão não tem. Nesses casos, sugiro que ela monte um grupo de oração com mulheres, para pedir a Deus que mude o coração do seu marido. Ele tem poder para fazer isso.”. “Cê apanha dona? Olha, divórcio é pecado, o melhor é você orar pro seu marido melhorar”. Isso, vamos esperar a providência divina, pelos dados dá pra ver que funciona.

Gente, dá medo.

Sobre a performance na Marcha das Vadias (não da Marcha)

Opinião de uma leiga.

Ouvi uma porção de argumentos defendendo a performance que aconteceu na Marcha das Vadias. Nenhum até agora me convenceu.

1º Nunca vi ninguém esclarecido, ou com boas intenções, que se dedique a queimar livros e destruir símbolos religiosos. Esse tipo de intolerância é característica da história da Igreja Católica (não só dela). Também é característico das Igrejas Evangélicas (o famoso episódio do pastor que chutou a santa). Sério, é com esse tipo de gente que vocês querem ser comparados? Com gente que não suporta a alteridade?

2º A Igreja Católica é homofóbica, machista, transfóbica, e mais uma porrada de fóbicas. O protesto é válido. O Papa vem aqui pra distribuir preconceito intitulado Manual de Bioética? O Estado tá paganu? Tem que protestar mesmo. Agora, quando se faz uma performance dessa as pessoas param de prestar atenção no que você diz para prestar atenção no que você faz. Ao invés de ser um convite  ao debate, faz com que a população se feche porque ficou chocada. Perdeu o propósito.

3º Eu, que admito não ser o melhor exemplo de tolerância, tenho uma política para “desrespeitar religião”. Se você quer acreditar em unicórnios, arca de Noé, gnomos, o problema é seu; não discuto, não argumento, não me importo, enfim “respeito” a sua escolha. O meu respeito termina quando a religião fere a minha liberdade ou a liberdade do outro. Acho que todo mundo tem o direito de criticar a Igreja Católica, porque ela dá motivos de sobra para isso; mas eu não entendo qual a nóia de quebrar santa e enfiar cruz no c*.

4º Não é relativismo, não é que a cultura católica é sagrada. O problema é que é intolerante. É que não acrescenta à luta feminista, LGBT, nem nenhuma outra; na verdade só atrasa.

5° Pra quem não entendeu ainda: não foi a Marcha que organizou a performance.

Nem vou corrigir, senão não posto.

Quem quer um Estado laico coloca a mão aqui…

O Má me mandou uma notícia sobre um protesto ateu, em que todos os que desejassem poderiam ser desbatizados: Desbatismo coletivo. Como era de se esperar a caixa de comentários é um compendio de bobagens religiosas aleatórias (antes que alguém me acuse de ser intolerante: “bobagens” vem antes de “religiosas” por um motivo). Considerando as pautas do protesto (fim do ensino religioso em escolas públicas, o uso de recursos governamentais na visita do Papa e a existência de símbolos religiosos em órgãos oficiais), achei de bom gosto, pra não dizer necessário. O desbatismo coletivo me pareceu dispensável, além de tirar o foco da pauta. Mas oukei. Teve muita gente que achou ofensivo, provocativo. Olha, acho que era pra ser provocativo mesmo. Porque, veja bem, quem não é religioso e tem que aturar discursos religiosos “oficiais” já tá de saco cheio.

Eu não sou anti-religião, não penso “queimem todos”, nem nada do gênero. Agora, tratar a religião como algo sagrado (olha a minha visível contradição re-re) não funciona também. Achar que tudo o que o seu livro sagrado diz é puro ouro é perigoso; bom senso faz diferença nessas horas. Por exemplo, achar legal que Abraão tenho mandado embora o seu filho bastardo e a mãe dele por pedidos da sua mulher (que arrumou o rock’n roll todo) não é muito bom; não conheço manual moral atual que aceite esse tipo de comportamento. É aí que entra o bom senso, de separar o que pode te fazer bem, do que não. Claro que para um religioso praticante isso é uma baita heresia, ou como disse um conhecido: “não escolho no que creio”. É mentira, escolhe sim. Pela minha experiência com questões religiosas posso dizer que tudo o que se escolhe não acreditar se chama de “contexto histórico” (ah, mulheres não podiam falar em congregações? Contexto histórico!) e isso é ótimo porque permite que você leve uma vida razoavelmente normal. Eu só não entendo porque não ampliar o “contexto histórico” pra outras áreas.

Foco Mariana, FOCO.

Vi há alguns dias um vídeo da Marina Silva dizendo: Estado laico não é Estado ateu. Óbvio né? Só que não tanto assim. A Marina tem me decepcionado bastante ultimamente, porque ela tem colocado a sua religião acima de tudo. Me explico: A Marina não é burra e nem nada, ela sabe que pra um Estado ser religioso ele não precisa carregar esse estigma, ele só precisa ser um Estado laico moral. E qual é o problema com um Estado moral?

Calma, me explico: a moral é transitória, cultural, inflexível e SEMPRE religiosa. Em geral as pessoas não tem muito claro a diferença entre moralidade e ética: a moralidade muda de sociedade para sociedade e é moldada principalmente pelos princípios religiosos vigentes; já a ética é uma reflexão continua sobre basicamente tudo, levando em consideração os prós e contras e o conhecimento produzido. A moral tem seu foco no individuo, nas suas crenças, nos seus valores. O foco da ética é o outro. É uma mudança gigantesca de perspectiva. Um exemplo claro e atual é a maneira como a sociedade encara a homossexualidade, se o Império Romano não tivesse se tornado cristão a homossexualidade seria encarada com normalidade, porque essa era a prática romana (e grega). O preconceito judeu, através do cristianismo, f* com tudo. É só por isso que você acha estranho, nojento, errado. Isso é moral. Considerar que existem evidências de homossexualidade em todos os animais, e as circunstâncias de sofrimento que o preconceito causa é ética. Deu pra entender a diferença?

Moral e religião são indissociáveis. E a Marina sabe disso, é por isso que ela não se importa em ter um Estado laico, ele só precisa ser moral. Um Estado moral não aceita aborto, não aceita homossexuais, não aceita que a prostituição seja legalizada, nem drogas (gente, até o FERNANDO HENRIQUE já mudou de opinião, sinais!); porque é errado e pronto. Não importa o quanto essas mudanças poderiam melhorar a qualidade de vida de todas essas pessoas, e que experiências em outros países tenham se mostrado promissoras. O que importa é que nós aprendemos toda a vida que tudo isso é errado, feio e pronto! Então, um Estado laico é um Estado ateu? Nananana… Um Estado ateu era a União Soviética, compreende? Um Estado pra efetivar a sua laicidade precisa ser amoral (não imoral), e precisa ser ético. Trocando em miúdos, precisa deixar de lado preconceitos religiosos e se focar no bem estar de TODOS os seus cidadãos.

E que Estado laico é esse Brasil? Que Estado laico quer obrigar uma mulher vítima de violência sexual a manter uma possível gravidez? Que Estado laico paga para um chefe religioso visitar o seu país? Que Estado laico tem o Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos? Alguém tá sendo trollado..

A minha mais recente preocupação à esse respeito são as escolas, por causa da minha filha. Fazer as pessoas entenderem porque a escola tem que ser laica é um parto. A Alice tem um ano e oito meses e já sofre (sim, sofre) doutrinação religiosa. Na escolinha, eles fazem oração pra comer (que eu resolvi ignorar, pra não ser chata), e mais recentemente (e preocupante) o Brincando nas férias: A Arca de Noé. Eu, ingênua, e o Mateus, ingênuo, perguntamos se tinha caráter religioso (boa fé gente, boa fé!): “não, é só porque eles podem aprender sobre os animais”; ahhhhh, então tá, escolha de tema ligeiramente peculiar, mas tá. Primeiro dia, a Alice volta com um pequeno bilhete e bombom. Conteúdo do bilhete: um versículo bíblico seguido de “aprendemos a obedecer”. E só piorou: nos dias seguintes as mensagens foram: versículo seguindo de “Aprendemos a acreditar”, “Aprendemos que Deus nos ama”, “Aprendemos que a confiar que Deus cuida de nós”. Profe, deus não te ensinou que mentir é feio?

Considerações sobre laicidade na escola (desconsiderando as de cunho religioso, como a rede La Salle): as crianças que frequentam a escola e os seus pais têm visões religiosas e de mundo diferentes, por isso é importante que a escola se mantenha neutra no que se refere à questões religiosas e principalmente à doutrinação. “Ah, mas é ecumênico, é de todas as religiões”, que burro, dá zero pra ele! Experimenta falar pra um judeu ortodoxo “é tudo igual” ver o que ele acha. Só a palavra “Deus” exclui um porção de religiões que são politeístas ou que não tem a figura de um deus, e é claro a descrença em deus. Quando as crianças fazem orações pra agradecer ao papai do céu pelo alimento, elas estão excluindo todas as religiões que não são cristãs; afinal a ideia de que Deus é pai surgiu e se restringe, até aonde eu sei, ao cristianismo. Isso pra ficar no argumento mais básico.

Às vezes, por conta disso, alguém me questiona se eu não estou impondo a minha visão de mundo à Alice. Peraí, você não manda o seu filho pra catequese/escola dominical? Tem gente que corta o prepúcio de meninos de 8 dias por motivos religiosos; tem quem dê alucinógenos pra crianças pequenas (e nesses casos, foda-se liberdade religiosa, tem que proteger essas crianças ô Estado)! Mas eu não posso querer proteger a minha filha de um ano e oito meses de doutrinação religiosa, é isso?

Resumindo, tem muita gente precisando se informar…

Argumentos asnos

Sabe quando você tá no meio de um debate tranquilo e a pessoa solta um argumento asno com ares de quem acabou de ter uma epifania? Aqueles que de tão batidos até tua bisavó já compartilhou no facebook?

Você:

a. Deixa por isso mesmo, não vale a pena discutir; ele vai ficar com aquela cara de “ganhei bébébé”, mas o que é isso comparado à paz de espirito?

b. Argumenta com calma, repetidamente as mesmas coisas; pra no final ter que ouvir uma versão nova da mesma frase/pergunta/argumento ridículo?

c. Cita milhões de gentes que você nunca leu, usa vocabulário atípico; e pra fechar com chave de ouro, acende um cachimbo, na melhor interpretação de inglês intelectual/charmoso/elegante com um olhar distante e blasé.

d. Começa a dar murro na mesa.