Porque violência doméstica ser gigante entre evangélicos não me surpreende

Cerca de 50% de evangélicas são vítimas de violência doméstica. Essa notícia não me surpreendeu nem um tiquinho de nada. Nem fez cócegas. Não tenho noção donde são esses dados que ela apresenta; pra não falar bobagem fiz uma rápida pesquisa e confirmei que o negócio é bicho feio mesmo.

No começo do vídeo a moça parece querer dizer: “Apesar de serem evangélicos, os homens ainda batem nas mulheres”. Não mocinha, não é apesar. É por causa de!

Já tô até escutando: “RA-DI-CAL!”.

Eu sei que o seu pastor não faz apologia à violência doméstica, e que não defende que homem bata em mulher. O problema é que as pregações evangélicas sobre gênero, relacionamento familiar e sobre como ser uma boa esposa (sim, isso existe!) são de cunho radicalmente machistas. Tipo extremo mesmo. O tipo de machismo que a nossa sociedade (ainda machista) não aceita.

Vou enumerar alguns machismos que me recordo (mas uma leitura distraída da bíblia ou de sermões por aí, vai revelar muito mais).

1º O seu corpo não te pertence, pertence ao seu cônjuge (“A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido; e também da mesma maneira o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher” 1ª Coríntios 7:4). Nada mais possessivo, mais ciumento é possível. Você não pode decidir sobre o seu próprio corpo, sobre o que vestir, não precisa consentir com o ato sexual! E não existe essa reciprocidade que o versículo tenta imprimir: a mulher deve ser submissa ao homem (Efésios 5:22), portanto não existe a possibilidade de uma relação horizontal de poder sobre o corpo do parceiro. Essa relação de domínio e posse é perigosa.

 2º A mulher deve ser submissa ao seu marido (Efésios 5:22). Já vi muita gente querendo justificar esse versículo: “é ser submissa em amor”, “ser submissa a um homem amoroso é fácil” ou o pior “submissão não é inferioridade, ou dominação”, então é o quê? Só se é submisso a alguém que de alguma forma lhe seja superior, a alguém a quem você DEVA obediência. E não importa se é com amor ou sem. Marido não é pai, ele não deve ter poder sobre a esposa, nem nada que se assemelhe.

3º Divórcio é pecado (“Foi dito: ‘Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio’. Mas eu digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério”  Mateus 5:31-32). O divórcio é uma conquista feminina. Quando o divórcio ainda era ilegal e o casamento não dava certo só um dos cônjuges ficava preso à relação: a mulher. Ao homem eram permitidos casos extraconjugais, ao homem era permitido a vida social fora do círculo familiar. Poder sair de um relacionamento que não deu certo foi empoderador para o sexo feminino. E fez muito bem para as relações amorosas: uma relação de poder mais horizontal fez com que a qualidade de vida e felicidade dos casais aumentasse. Achar que o divórcio é errado é tirar esse poder feminino.

4º A sexualidade feminina é entendida como passiva. A mulher não deseja, mas ela provoca. Se o homem sente desejo por alguma moiçola da igreja é culpa dela que não é suficientemente recatada. Existem milhares de códigos de vestuário feminino (de não usar saia curta, decote, muita maquiagem). Se supõe que a mulher tenha controle sobre o seu desejo (ou a falta dele) e o homem não. Ao homem é desculpável o adultério, o desejo, o sexo. À mulher não; à ela não é nem desculpável ser desejada. Como se qualquer um de nós tivesse controle sobre o próprio desejo ou sobre o desejo do outro. Novidade pros evangélicos: desejo é revelia! Não se controla nem o seu, muito menos o dos outros. Aliás tentar suprimir sexualidade é um tiro no pé.

Poxa, numa cultura tão claramente machista não é de estranhar que violência doméstica seja tão comum. Muito mais do que no resto da sociedade.

E se você ainda acha que violência doméstica não tem nada a ver com religião, leia esse texto de um conhecido site evangélico: Mulheres cristãs vítimas de violência doméstica: orar ou denunciar? Esse título não pode ser sério. Alguém consegue imaginar um título semelhante em algum canal de veiculação que não seja religioso? Já imaginou, cê vai lá abrir a página do G1 e dar de cara com isso? No way! Agora vamos às pérolas:

 “No aconselhamento, recebemos mulheres vítimas de violência, que chegam muitas vezes machucadas. Nós apoiamos a denúncia, mas precisamos conversar com o marido. Às vezes, a mulher tem a sua parcela de culpa nos casos de violência, porque provoca o marido. Ela precisa sim denunciar, mas primeiro deve buscar aconselhamento.”. No melhor estilo mulher apanha porque merece: “olha que se seu marido é descontrolado, ciumento, possessivo e violento você tem sua parcela de culpa moça”. Lamentável, sem mais.

“Só há respaldo bíblico para o divórcio em duas situações: infidelidade e abandono. Qualquer outra razão não tem. Nesses casos, sugiro que ela monte um grupo de oração com mulheres, para pedir a Deus que mude o coração do seu marido. Ele tem poder para fazer isso.”. “Cê apanha dona? Olha, divórcio é pecado, o melhor é você orar pro seu marido melhorar”. Isso, vamos esperar a providência divina, pelos dados dá pra ver que funciona.

Gente, dá medo.

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